A leitura do mundo e a leitura da palavra

A leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele. (…) este movimento do mundo à palavra e da palavra ao mundo está sempre presente” (Freire, 1989, p. 13).

Esta citação revela a ideia de um movimento bidirecional entre a experiência no mundo e a leitura, movimento bidirecional que os profissionais que trabalham com crianças com cegueira experimentam diariamente. No caso destas crianças, um dos grandes desafios que atravessam a prática educativa, prende-se com a forma como, a priori, se poderá facilitar o conhecimento do mundo através de outros canais sensoriais que não a visão. Os caminhos que nos levam às respostas são um desafio, que se acentua quando consideramos que captamos 80% a 90% de informação através da visão (Kastrup, Carijó & Almeida, 2009). Surge, assim, a necessidade da criança ter acesso a um conjunto de experiências significativas que lhe permitam viver e conhecer o mundo, através da mediação de outros sentidos, que podem igualmente produzir experiências ricas.

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Mas não serão também os livros uma ferramenta de conhecimento para que as crianças sejam capazes de ler o mundo?

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Yunes, na sua comunicação nos “Caminhos da Leitura”, em Junho de 2015, em Pombal, dizia que a linguagem literária abre horizontes, transportando possibilidades, ultrapassando o espaço, o tempo, outras vidas e culturas, sendo a dimensão poderosa da linguagem, capaz de nos trazer o que está no mundo: “À leitura corresponde tal alargamento de mundo, uma ampliação tão potente da linguagem, primeiro linguística e logo semiótica (pela transposição do modo de construção de significados e sentidos de uma esfera para outra), que ler passa à condição sine qua non para partilhar ideias e reflexões que, de alguma maneira, movem o universo humano” (Yunes, 2014, p. 130). A leitura é, assim, uma experiência de se ver o mundo e nos posicionarmos enquanto seres no mundo, nas palavras de Yunes: uma “espécie de upgrade da interpretação do estar no mundo para uma condição do ser no mundo” (Yunes, 2014, p. 131).

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Esta abordagem leva-nos, também, a refletir sobre a importância de se respeitar o leitor na interpretação do escrito. Enquanto mediadores de leitura, não será nossa função anular as diferentes interpretações das crianças enquanto leitoras.

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Também no caso das crianças cegas este paradigma ganha destaque, considerando que a perceção do mundo de um cego poderá não ser a mesma de um normovisual, e a visão do segundo não deve ser imposta ao primeiro. Cabe, antes, ao mediador facilitar o processo de leitura, para que este seja acessível e prazeroso para as crianças. Tomando o livro como “um princípio e não um fim” e lendo com “os cinco sentidos”, como defende Eva Mejuto.

Referências bibliográficas:

Freire, P. (1989). A importância do ato de ler em três artigos que se completam. Cortez Editora: São Paulo.

Kastrup, V., Carijó, F., Almeida, M. (2009). A Abordagem da Enação no Campo da Deficiência Visual. Informática na Educação: teoria & prática, v. 12, n. 2: Porto Alegre.
 
Yunes, E. (2014). Leituras Com Partilhadas, Leitores Multiplicados. PERcursos Linguísticos, v.4, n. 8. Universidade Federal do Espírito Santo, Programa de PósGraduação em Linguística: Vitória

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