“Tudo é sempre outra coisa”. Ilustrações hápticas: adaptação de livros infantis para a cegueira

Hoje partilhamos um pequeno resumo do 2º Painel das V Jornadas Deficiência Visual & Intervenção Precoce – Literacia Emergente para a Cegueira.

O painel tinha início com a voz de Joana Carvalho, antiga colaboradora da ANIP e grande amiga da OLEC, com a leitura do seguinte texto:

Lembramo-nos que poderia ser uma coisa boa, enaltecer o livro “Tudo é sempre outra coisa”, de João Pedro Mésseder e Rachel Caiano, para ilustrar este painel. Diz-nos o autor que há sempre um outro lado das coisas. Leio:

 E que lado é esse? Talvez o outro lado do que se vê, o outro lado do que se ouve, o outro lado do que se sente. Até o outro lado de cada palavra, que as palavras às vezes têm vários lados, como as coisas. Porque nem tudo é só o que parece ser. Como dizia certo poeta, tudo é sempre outra coisa…

E “Tudo é sempre outra coisa” explana um pouco a problemática da conceção de ilustrações táteis…Como criar imagens táteis fiéis, imagens que recriem aspetos de um mundo real ou de um mundo narrado, “se tudo é sempre outra coisa”, se a maneira como vejo, poderá ser diferente da maneira que vês? Como criar imagens táteis fiéis se o contexto percetivo na cegueira difere do contexto percetivo da cultura visual?

Mésseder escreve:

Os pintores roubam a beleza do mundo – embora eles digam que não, que lhes vem tudo da cabeça. Mas a verdade também é que o mundo não chega a perder essa beleza. Parece é que os pintores a multiplicam nos seus quadros. Talvez por isso, são os únicos ladrões que ninguém se importa que andem por aí, em liberdade.

Estamos certas que os pintores das ilustrações hápticas roubam as sensações do mundo… sensações partilhadas por pessoas cegas e normovisuais…porque todos sentimos…

Parece que esses pintores, as multiplicam nos livros, convidando todos a apreciar a beleza do mundo, pelo toque, que em parelha com a escuta da palavra, nos permite um vai-e-vem afinado entre representação e realidade.

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Descrição da Fotografia: Painel 2 – da esquerda para a direita: Moderadora Alice Liberto, Facilitadora na tradução Anabela Antunes, Orador Philippe Claudet. 

Assim, começava o 2º Painel, com moderação de Alice Liberto – Professora especializada no domínio da visão – Agrupamento de Escolas Grão Vasco de Viseu. Este foi um painel que situou o auditório sobre a problemática da concepção das ilustrações táteis em livros infantis.

Philippe Claudet, professor e diretor da Les doigts qui rêvent, partilhou o longo caminho percorrido por esta editora para tornar o livro acessível a todas as crianças, tornando-o num ponto de encontro entre crianças com cegueira e normovisuais. Lançou-nos o desafio de refletirmos sobre a representação de conceitos tais como a noite para alguém que nunca viu.

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Descrição da fotografia: Philippe Claudet. 

Suportado pela evidência da prática e da investigação cientifica falou-nos do modelo de ilustração háptico como meio privilegiado para transformar o livro num instrumento poderoso através do qual a criança com cegueira pode explorar experiências múltiplas do seu corpo em contato com os objetos e o meio.

Face ao modelo mais comum “ilustração visual em relevo”, as ilustrações hápticas têm-se demonstrado mais adequadas ao contexto percetivo de crianças com cegueira. O sistema percetivo háptico considera as sensações sensoriais e motoras do nosso corpo ao realizarmos ações como subir uma escada ou caminhar sobre a neve.

Por último, Philippe Claudet referiu que as crianças com cegueira se encontram ainda numa situação de grande desvantagem de oportunidades no que concerne Literacia Emergente. Referiu que “se a deficiência incide sobre o indivíduo, o handicap está dependente da sociedade” apelando para a importância do livro infantil ilustrado estar acessível a crianças com cegueira traduzindo-se num importante passo para a inclusão e igualdade de oportunidades de literacia emergente.

Lançou, por último, um desafio à comunidade científica, universidades, agentes educativos e famílias para que se criem sinergias na procura de criar cada vez respostas mais eficazes e inclusivas no processo criativo de produção de um livro que traduza uma realidade maioritariamente construída e apreendida por normovisuais, acessível aos olhos de uma criança com cegueira.

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Descrição da fotografia: Philippe Claudet. 

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