O Bebé com Cegueira: O Afeto como Colo da Literacia (Parte I)

Sensível à modulação da voz, o recém-nascido se alimenta – desde o terceiro mês de gestação – da linguagem, verdadeiro património cultural da humanidade.

Evélio Cabrejo-Parra (2011)

Sendo a visão um sentido integrador da informação captada no meio, a ausência da mesma constitui um desafio ao desenvolvimento da criança com cegueira. Vários autores têm destacado que a chave para o pleno desenvolvimento e sucesso da criança com cegueira está na qualidade das interações com o meio e cuidadores bem como na apropriação/conhecimento do meio e, em última instância, do mundo mais e, gradualmente, menos próximo.

Ora este trabalho de intrusão da criança no mundo começa desde o berço, desde o colo da mãe/cuidador, que é também o primeiro colo da literacia e elo de ligação com o mundo. O desenvolvimento da criança com deficiência visual começa a estruturar-se desde o nascimento a partir das competências de exploração bem como das influências do seu ambiente (Cunha & Emuno, 2003, cit. França-Freitas & Gil, 2012). Nos primeiros anos de vida a integração sensorial, a sintetização e a interpretação das informações fornecidas por outros canais perceptivos devem ser amplamente exploradas pelos cuidadores da criança com cegueira (Souza et al., 2010, cit. França-Freitas & Gil, 2012).

Com este artigo pretende-se, de forma sumária, explicitar a forma como o bebé com cegueira se liga ao mundo. Perceber esta conexão é essencial para que os cuidadores usem as ferramentas adequadas desde o início de vida do bebé. E de facto percebe-se que o afeto é o colo da literacia, é o primeiro veículo que o bebé tem para conhecer o meio e se expressar, ainda que inicialmente de forma muito primária. Destacam-se os sentidos da audição e do tato como principais catalisadores deste afecto nos primeiros meses de vida do bebé. Mas afinal como se processam estas ligações?

O bebé ouve os sons do seu meio e estes vão-lhe dando uma série de conhecimentos. Ouvir proporciona uma certa orientação sobre a direção e a distância sobre a qual se encontra o objeto sonoro, mas pouca informação sobre as suas qualidades (forma, tamanho, cor, posição no espaço, etc.), especialmente quando não se pode relacionar com experiências e conhecimentos anteriores. Não resta, no entanto, dúvida sobre a importância do sentido auditivo para a organização das primeiras experiências do bebé: o bebé no berço ouve os passos da mãe, ouve a sua voz em diálogo, percebe a sensação do seu corpo quando a mãe o pega ao colo, a pressão, o afeto… e estas sensações configuram-se experiências  em que o bebé recolhe informação e compreende o meio/situação (Leonhardt, 1992).

Nos primeiros meses, a voz da mãe funciona como estímulo emocional daí a importância da conversa, que a mãe/cuidador conte histórias e cante para o bebé.

Desde o nascimento, os bebês são atraídos pela musicalidade da voz. Bebês recém-nascidos se alimentam da fala.

Para aprender uma língua, é necessário ter ouvido alguém falar. O bebê necessita que falem com ele.

Excerto “A pequena história dos bebês e dos livros” (2013)

música

Ao balbuciar, o bebê cria a sua própria música, a sua própria melodia e, apoiando-se nas vozes daqueles que o cercam, vai construindo sua própria voz. Os adultos compreendem essa música e dialogam com o bebê através da sonoridade da língua, pela modulação da voz. 

Excerto “A pequena história dos bebês e dos livros” (2013)

balbuciar

O bebê tem sede de ritmos. Ele gosta do que acontece regularmente: a presença e ausência da mãe, o ritmo das refeições, a alternância do dia e da noite… Ele adora os refrões, as cantigas de ninar, parlendas e brincadeiras de linguagem. 

Excerto “A pequena história dos bebês e dos livros” (2013)

ritmo

Quando a mãe produz  sons suaves com a boca, se a mão do bebé estiver por perto, começará a fazer tentativas para tocá-la e, notando as vibrações e os sons, pode deixar a sua mãozinha quieta sobre a sua boca, iniciando assim o princípio da futura competência de coordenação mão-ouvido (Leonhardt, 1992).

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Na ausência da visão, e do contacto visual bebé-cuidador, o contacto físico ganha especial relevância. O sistema tátil concretiza a presença do outro/do cuidador. O tato é o símbolo do contacto físico e da presença afetuosa do outro, tão importante para as crianças com cegueira. Nas primeiras idades, o tato permite reconhecer o outro através das suas características.

A boca, região especialmente sensível, concentra as sensações mais intensas de prazer e conhecimento nas primeiras idades e nas crianças com cegueira poderá prolongar-se um pouco mais no tempo (Leonhardt, 1992).

O bebé começará a dar significado muito precocemente a certas perceções táteis. As suas mãos começam a especializar-se em contato com as da sua mãe. Estes contatos serão os primeiros passos do bebé na construção do sistema háptico. É importante que a mãe e as figuras mais próximas “joguem” com as mãos da criança neste contacto, conferindo afeto, comunicação, calor, suavidade, sensações prazerosas, informação. Aos poucos, o bebé começará a diferenciar os diferentes toques e a expressar agrado e desagrado com o contacto com o outro (ibidem.)

O afeto é, assim, o colo da literacia do bebé com cegueira: pela voz e pelo toque afectuoso do cuidador, o bebé vai construindo conhecimento e, com segurança, descobrindo o mundo.

Não perca no próximo artigo algumas sugestões práticas para embalar o seu bebé, com afeto, no colo da literacia.

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Referências Bibliográficas: 

A pequena história dos bebês e dos livros (2013). Acesso em: https://revistaemilia.com.br/a-pequena-historia-dos-bebes-e-dos-livros/

Entrevista a Evélio Cabrejo-Parra (2011). Acesso em: https://revistaemilia.com.br/evelio-cabrejo-parra/

França-Freitas, Maria Luiza Pontes de, & Gil, Maria Stella Coutinho de Alcântara. (2012). O desenvolvimento de crianças cegas e de crianças videntes. Revista Brasileira de Educação Especial, 18(3), 507-526. https://doi.org/10.1590/S1413-65382012000300010

Leonhardt, M. (1992). El bebé ciego. Barcelona: Mason.

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